Tese. Mulheres na Agroecologia: resistências e respostas frente à mineração e ao uso de agrotóxicos na Zona da Mata de Minas Gerais
Liliam Telles. Mulheres na Agroecologia: resistências e respostas frente à mineração e ao uso de agrotóxicos na Zona da Mata de Minas Gerais. Universidade Federal de Viçosa, 2025. Orientador: Alair Ferreira de Freitas. Co-orientadora: Isabelle Hillenkamp.
Tese associada ao projeto GENgiBRe
A tese analisa conflitos socioambientais na Zona da Mata mineira, território com forte presença da agricultura familiar e reconhecido por uma Rede de Agroecologia de cerca de quatro décadas. Apesar disso, a região é também a segunda maior produtora mundial de café arábica como commodity e concentra a segunda maior reserva de bauxita do país, tornando-se alvo estratégico de empresas mineradoras. A partir de 2020, com a alta do preço do café e incentivos governamentais à mineração, aumentam as pressões do modelo extrativista industrial, que se manifesta num continuum de violências: desde ameaças às lideranças até formas mais invisibilizadas que atravessam o cotidiano das comunidades, afetando especialmente as mulheres.
Adotando uma perspectiva sobre masculinidades, a pesquisa investiga relações de poder entre homens e mulheres e entre diferentes grupos masculinos (agricultores, técnicos, agentes financeiros, comerciantes de insumos, representantes de empresas, atravessadores) em territórios ameaçados pela mineração e pelo uso intensivo de agrotóxicos no cultivo do café. O modelo de produção do extrativismo industrial articula escalas diversas de poder, desde a intrafamiliar às dinâmicas globais que regulam os preços das commodities. As indústrias de agrotóxicos instrumentalizam papéis de gênero ao reforçar atributos da masculinidade hegemônica e o papel do homem como provedor, subordinando mulheres, seus saberes e a natureza à lógica capitalista. A expansão da agricultura de commodities aprofunda a mercantilização da vida comunitária e intensifica desigualdades de gênero, criando condições favoráveis à entrada de projetos extrativistas, como a mineração, frequentemente legitimados pela promessa de emprego e renda masculina. Assim, agronegócio e mineração operam articuladamente, impulsionando um processo de (re)patriarcalização do território que limita a autonomia de mulheres e comunidades tradicionais.
Em contraponto, agricultoras produzem novas escalas de disputa ao politizar impactos dos agrotóxicos e sementes transgênicas e ao visibilizar resistências cotidianas – muitas vezes no espaço doméstico e em práticas pouco reconhecidas publicamente. Por meio de sistemas agroecológicos diversificados e manejo multiespécies em quintais, hortas e áreas abandonadas, tensionam a racionalidade da agricultura “moderna”, defendendo a centralidade da produção de alimentos, biodiversidade e “bonitezas”. Enquanto a lavoura de café, geralmente responsabilidade masculina, tende à simplificação produtiva e à valorização do saber técnico-científico, as agricultoras promovem resistências graduais que preservam saberes empíricos e diversidade.
A tese conclui que os conflitos socioambientais refletem disputas mais amplas sobre a produção do território e a organização das relações de gênero, nas quais o modelo extrativista atua tanto sobre a materialidade do espaço quanto sobre subjetividades, reforçando hierarquias de poder. A agroecologia, praticada por agricultoras e alguns agricultores, surge como campo político e ontológico de disputa, onde saberes, práticas e afetos contestam a mercantilização da vida e a reprodução de masculinidades hegemônicas. Contudo, esses processos têm contradições e limites internos, exigindo compreensão da agroecologia como fenômeno relacional, histórico e situado. A principal contribuição do trabalho é articular gênero, território e agroecologia como dimensões indissociáveis para compreender criticamente a reprodução das desigualdades e as possibilidades concretas de transformação socioambiental nos territórios em disputa.
Palavras chave: conflitos socioambientais; gênero; agroecologia; mineração; agrotóxicos